LUUANDA JOS LUANDINO VIEIRA PDF

Tudo por acaso E no me larga mais para ler o jornal onde pensa vir o nome e a histria do papagaio Louro que o seu orgulho. A partir do exemplo acima cremos que possvel refletir sobre a transfigurao artstica operada pelo autor a partir da cidade de Luanda e seus habitantes, o que propicia afirmar que, passados cinquenta anos de sua publicao, o livro de Jos Luandino Vieira ainda mobiliza as emoes dos leitores e instiga a crtica, demonstrando a atualidade de uma obra que se mantm em circulao e que suscita novas leituras, como aponta Francisco Topa , p. E Luuanda ainda diz muito: por exemplo, na geografia amorosa que se descortina ao leitor das trs estrias do livro, pois os becos e ruas, avenidas e vielas de Luanda so recriados e palmilhados pelas personagens de Luandino Vieira e com eles possvel conhecer as ruas da Baixa, seja a dos Mercadores, das Flores, os becos ou ento os musseques: Braga, Makulussu, Lixeira e as suas tortas ruas. Essa Luanda que emerge das estrias, como veremos, parece confundir-se com a cidade de pedra 4 , a Luanda extra-textual. Um olhar atento, contudo, permite desmentir a identificao, pois a construo esttica ultrapassa a geografia e foge ao documento sociolgico.

Author:Vudogrel Brasho
Country:Belgium
Language:English (Spanish)
Genre:Relationship
Published (Last):14 April 2015
Pages:455
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ISBN:551-1-54026-364-9
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Nascido a 4 de maio de e criado vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, atravs de sua prosa extraordinria, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literrias e polticas no quadro da luta pela libertao nacional levam-no diversas vezes priso, num total de onze anos. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas toa.

Assim, quando vav adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a no querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva sair. Ora a manh desse dia nasceu com as nuvens brancas mangonheiras no princpio; negras e malucas depois a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu razo em vav Xxi: ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa, a gua ia vir mesmo. A chuva saiu duas vezes, nessa manh.

Primeiro, um vento raivoso deu berrida nas nuvens todas fazendo-lhes correr do mar para cima do Kuanza. Depois, ao contrrio, soprou-lhes do Kuanza para cima da cidade e do Mbengu.

Nos quintais e nas portas, as pessoas perguntavam saber se saa chuva mesmo ou se era ainda brincadeira como noutros dias atrasados, as nuvens reuniam para chover mas vinha o vento e enxotava. Vav Xxi tinha avisado, verdade, e na sua sabedoria de mais velha custava falar mentira. Mas se ouvia s ar quente s cambalhotas com os papis e folhas e lixo, pondo rolos de poeira pelas ruas.

Na confuso, as mulheres adiantavam fechar janelas e portas, musseque antigo bairro popular, urbano ou suburbano. Baixa parte baixa da cidade de Luanda; centro comercial. Dar barrida dar uma corrida em algum ; afugentar, afastar com violncia; expulsar. Kuanza principal rio de Angola; nasce no planalto do Bi e desgua ao sul de Luanda. Mbengu rio de Angola, a norte de Luanda.

Mas, cansado do jogo, o vento calou, ficou quieto. Durante algum tempo se sentiram s as folhas das mulembas e mandioqueiras a tremer ainda com o balano, e um prulas, triste, cantando a chuva que ia vir. Depois, pouco-pouco, os pingos da chuva comearam cair e nem cinco minutos que passaram todo o musseque cantava a cantiga dgua nos zincos, esse barulho que adiantou tapar os falares das pessoas, das mes gritando nos monandengues para sair embora da rua, carros cuspindo lama na cara das cubatas, e s mesmo o falar grosso da trovoada que lhe derrotava.

E quando saiu o grande trovo em cima de musseque, tremendo as fracas paredes de pau-a-pique e despregando madeiras, papeles, luandos, toda a gente fechou os olhos, assustada com o brilho azul do raio que nasceu no cu, grande teia daranha de fogo, as pessoas juraram depois as torres dos refletores tinham desaparecido no meio dela. Com esse jeito choveu muito tempo. Era meio-dia j quase quando comeou ficar mais manso, mesmo com o cu arreganhador e feio, todo preto de nuvens.

O musseque, nessa hora, parecia era uma sanzala no meio da lagoa, as ruas de chuva, as cubatas invadidas por essa gua vermelha e suja correndo caminho do alcatro que leva na Baixa ou ficando, teimosa, em cacimbas de nascer mosquitos e barulhos de rs.

Tinha mesmo cubatas cadas e as pessoas, para escapar morrer, estavam na rua com as imbambas que salvaram. S que os capins, aqueles que conseguiam espreitar no meio das lagoas, mostravam j as cabeas das folhas lavadas e brilhavam uma cor mais bonita para o cu ainda sem azul nem sol. Na hora que Zeca Santos saltou, empurrando a porta de repente e escorregou no cho lamacento da cubata, vav ps um grito pequeno, de susto, com essa entrada mona criana. Zeca riu; vav, assustada, refilou: En, menino!

Tem propsito! Agora pessoa de famlia co, no? Licena j no pede, j no cumprimenta os mais velhos Desculpa, vav! Vav Xxi muxoxou na desculpa, continuou varrer a gua no pequeno quintal. Tinha adiantado na cubata e encontrou tudo parecia era mar: as paredes deixavam escorregar barro derretido; as canas comeavam aparecer; os zincos virando chapa de assar castanhas, os furos muitos.

No cho, a gua queria fazer lama e mesmo que vav punha toda a vontade, nada que conseguia, voltava sempre. Viu bem o melhor era ficar quieta, sentou no caixote e, devagar, empurrou as massucas no stio mais seco para fazer o fogo, adiantar cozinhar almoo.

L fora, a chuva estava cair outra vez com fora, grossa e pesada, em cima do musseque. Mas j no tinha mais trovo nem raio, s o barulho assim da gua a correr e a cair em cima da outra gua chamava as pessoas para dormir.

Ouve ainda, vav! A fala de Zeca era cautelosa, mansa, Nga Xxi levantou os olhos cheios de lgrimas do fumo da lenha molhada. Vamos comer o qu? Fome muita, vav! De manh no me deste meu matete, Ontem pedi jantar, nada!

No posso viver assim Vav Xxi abanou a cabea com devagar. A cara dela, magra e chupada de muitos cacimbos, adiantou ficar com aquele feitio que as pessoas tinham receio, ia sair quissemo, ia sair quissende, vav tinha fama Ento, voc, menino, no tens mas vergonha? Ontem no te disse dinheiro cabou? No disse para o menino aceitar servio mesmo de criado? No lhe avisei?

Diz s: no lhe avisei? Nga forma abreviada de dizer Ngana, senhora. Mas, vav! V ainda! Trabalho estou procurar todos os dias. Na Baixa ando, ando, ando nada! No musseque Cala-te a boca! Voc pensa que eu no lhe conheo, enh? Est bom, est bom, mas quem lhe cozinhou fui eu, no!? Tinha levantado, parecia as palavras punham-lhe mais fora e juventude e ficou parada na frente do neto.

A cabea grande do menino toda encolhida, via-se ele estava procurar ainda uma desculpa melhor que todas desses dias, sempre que vav adiantava xingar-lhe de mangonheiro ou suinguista, s pensava em bailes e nem respeito mesmo no pai, longe, na priso, ningum mais que ganhava para a cubata, como iam viver, agora que lhe despediram na bomba de gasolina porque voc dormia tarde, menino?

Juro, vav! Andei procurar trabalho O menino foste no branco s Souto, foste? Te avisei ainda para ir l, se voc trabalha l, ele vai nos fiar almoo! Zeca Santos fechou a cara magra com as palavras da av. Na barriga, o bicho da fome, raivoso, comeou roer, falta de comida, dois dias j, de manh s mesmo uma caneca de caf parecia era gua, mais nada.

Vav quase a chorar lhe sacudiu da esteira com a vassoura para ele ir embora procurar servio na Baixa e quando Zeca saiu, ainda falava as palavras cheias de lgrimas, lamentando, a arrumar as coisas: Nem maquezo nem nada! Aiu, minha vida! Esta vida est podre! Agora, recolhida no canto, continuava soprar o fogo; a lata de gua fervia, mas nada que tinha para pr l dentro. Mas, vav, vamos comer? Vamos comer, vamos comer!

Vamos comer mas tuji! Menino trouxeste dinheiro, trouxeste, para comprar as coisas de comer? Todos dias nas farras, dinheiro que voc ganhaste foi na camisa e agora vav quero comer, vav vamos comer o qu?! Juzo, menino! Continuou abanar o fogo com raiva, a lenha j estava arder muito bem, cheia de estalos, fazendo mesmo pouco fumo, mas vav no podia ficar ainda calada.

Lamentou outra vez: Aiu! No te disse para ir no s Souto? Cadavez se voc ia lhe ajudar, ia nos fiar outra vez, cada-vez quem sabe O branco s Souto, o branco s Souto! V s, vav, v ainda, mira bem! Zeca Santos estava tirar a camisa amarela de desenhos de flores coloridas, essa camisa que tinha-lhe custado o ltimo dinheiro e provocado uma grande maca com vav.

Na pouca luz da cubata e do dia sem sol, as costas estreitas de Zeca apareceram com um comprido risco vermelho atravessado. Vav levantou com depressa e passou as mos velhas e cheias de calos nas costas novas do neto.

Como o menino arranjaste? Diz s! Mas ele j tinha vestido outra vez a camisa. Virado para vav Xxi, empurroulhe devagar para ir no caixote dela e sentando o comprido corpo magro na mesa pequena, comeou falar triste, disse: Vav me disseste para eu ir l e eu fui.

Nem mesmo a chuva que tinha comeado a chover e a fome estava-me chatiar nessa hora S Souto recebera-lhe bem, amigo e risonho, ps mesmo a mo no ombro dele para falar: Pois claro! Para o filho de Joo Ferreira tenho sempre qualquer coisa. E a av, vai bem? Diz ela no precisa ter vergonha Tinha desaparecido depois, na direo do armazm, arrastando a barriga dele dentro da camisola suja e Zeca Santos distraiu-se a olhar a bomba da gasolina com tambor e manivela de medir, no era automtica como as da Baixa, no senhor.

E dois vidros amarelos, cada qual marcando cinco litros Juro, vav, no fiz nada, no disse nada!

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